Por Karine Riboli |
A defasagem constitutiva do sujeito na linguagem.
Quando Jacques Lacan enuncia “Je pense où je ne suis pas, donc je suis où je ne pense pas”, frase cuja tradução mais próxima para o português nos dá “Penso onde não sou, logo sou onde não penso”, não é um mero jogo de palavras. Trata-se de uma subversão radical do cogito cartesiano. Enquanto Descartes buscava no “penso, logo sou” uma prova de unidade e autotransparência do ser, Lacan aponta para uma fratura: onde eu penso (no nível do enunciado, do eu consciente), eu não sou; e onde eu sou (o sujeito do inconsciente), eu não penso, ao menos não da forma lógica e reflexiva.
Só tenho notícia de mim a posteriori. Quando me digo, já não sou. O “eu” não coincide com o ser; ele chega sempre atrasado de si.
Pode-se argumentar: há experiência imediata, anterior à palavra. O corpo percebe, reage, se orienta. Mas não se trata aqui do funcionamento orgânico ou perceptivo, e sim da inscrição do sujeito. O que não passa pela linguagem pode ocorrer, mas não comparece como experiência significada. E o que aqui se interroga é justamente esse comparecimento.
Fora da linguagem não há presente apreensível… há o que escapa à simbolização. E o que escapa não se organiza como “agora”; irrompe, descontinua, fura.
Vende-se a ideia: “viva o presente”. Mas que presente é esse que só se constitui quando já pode ser dito? O que se chama de agora opera menos como tempo do que como consistência suposta. Não um dado, mas uma estabilização precária que responde à necessidade de não colapsar diante da própria descontinuidade. Se há consistência, ela não é originária. É sustentada.
Na Psicanálise, o inconsciente não se submete à cronologia. Não há passado arquivado nem presente puro. Há insistência, retorno, repetição. Nachträglichkeit: o sentido advém depois. Não como acréscimo, mas como condição.
O ponto não é lógico-formal; é estrutural. Aquilo que se reconhece como experiência do sujeito já está atravessado por uma defasagem constitutiva. O atraso, portanto, não é acidente nem falha a ser corrigida. É condição. Não há desejo sem não-coincidência. Um sujeito transparente a si mesmo, que coincidisse com o “penso” de Descartes, estaria saturado. O atraso introduz a falta. E a falta sustenta o movimento.
Não somos o que pensamos ser. Estávamos. E mesmo isso só se enuncia agora, quando já não é.
Essa defasagem revela que fomos ditos antes mesmo de existir. Inseridos numa cadeia significante que nos antecede. O nome próprio, esse “suposto ponto inaugural”, já nos chega usado. Para que algo seja reconhecido como novo, precisa apoiar-se no já-dito; ou seja, o novo, para circular, deve ressoar como antigo. Nomear é repetir sob outra forma.
A identificação se produz nesse campo: a partir de restos de discurso, de enunciados que vêm de um Outro que tampouco permanece idêntico a si. O que nos constitui já não está mais lá da mesma maneira, e, ainda assim, insiste.
Se o presente depende de ser dito, ele não se sustenta como origem. Se o nome depende do já-dito, ele não inaugura. Se o desejo exige falta, ele não se completa. E se, por fim, alguém objetar que tal formulação dissolve a possibilidade de afirmar qualquer coisa, resta o fato de que é justamente a partir dessa não-coincidência que algo, finalmente, se diz.
Referências Bibliográficas
- FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer [Jenseits des Lustprinzips]: Edição crítica bilíngue. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2020.
- LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
- FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Texto publicado originalmente em: https://clinicariboli.com.br/presente-no-passado/
Conheça mais sobre a psicanalista Karine Riboli em:
Site: www.clinicariboli.com.br
Insta: @psikarineriboli