23/04/2026 às 21:21 Psicanálise

GOZO E SEXUALIDADE NA CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS

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Por Juliani Souza |

Este artigo propõe uma reflexão teórico-clínica sobre o gozo e a sexualidade na clínica psicanalítica com crianças, a partir das contribuições de Sigmund Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott e Jacques Lacan. Busca-se articular essas perspectivas com a prática educacional, especialmente no contexto da alfabetização, evidenciando a importância de uma escuta sensível às dimensões subjetivas do desenvolvimento infantil. Sustenta-se que o sofrimento psíquico da criança se expressa por meio de sintomas, dificuldades de aprendizagem e comportamentos, os quais devem ser compreendidos como formas singulares de elaboração. Defende-se, assim, uma prática clínica e educativa comprometida com a singularidade, o desejo e a dignidade da infância. Embora este trabalho proponha uma articulação entre diferentes autores, é importante destacar que suas perspectivas não são homogêneas. Há divergências significativas quanto à constituição psíquica, especialmente entre as abordagens de Melanie Klein, Donald Winnicott e Jacques Lacan. Neste artigo, tais contribuições serão utilizadas como operadores teóricos complementares, sem a pretensão de unificação conceitual.

 1. INTRODUÇÃO

A clínica psicanalítica com crianças ocupa um lugar singular no campo da saúde mental e da educação, uma vez que envolve o sujeito em constituição, o campo familiar e as demandas institucionais. Diferentemente da clínica com adultos, o trabalho com crianças exige atenção às manifestações corporais, lúdicas, escolares e relacionais, que frequentemente expressam conflitos ainda não simbolizados.

Desde sua origem, a psicanálise se dedica à compreensão da infância como tempo fundamental da constituição subjetiva. A partir das contribuições de Sigmund Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott e Jacques Lacan, tornou-se possível compreender que o sofrimento infantil não se reduz a questões comportamentais ou cognitivas, mas se inscreve na história emocional da criança.

Este artigo tem como objetivo articular essas quatro vertentes teóricas, destacando suas contribuições para a compreensão da sexualidade, do gozo e do sintoma na infância, bem como suas implicações para a prática clínica e educativa, especialmente no contexto da alfabetização.

2. FREUD E A SEXUALIDADE INFANTIL: FUNDAMENTOS CLÍNICOS

A obra de Freud inaugura uma ruptura decisiva com as concepções moralizantes da infância ao afirmar a existência da sexualidade infantil. Em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), o autor demonstra que a sexualidade não se restringe à genitalidade adulta, organizando-se desde cedo por meio de zonas erógenas e satisfações parciais.

A criança, desde o início da vida, é atravessada pelas pulsões, constituindo-se como sujeito de desejo. O corpo infantil torna-se, assim, um corpo erógeno e simbólico, marcado pelas experiências de cuidado, frustração e investimento afetivo.

A distinção entre pulsão e instinto permite compreender a plasticidade da vida psíquica. A pulsão não possui objeto fixo, sendo moldada pelas relações primárias. Na clínica, essa concepção possibilita compreender que muitos sintomas infantis expressam tentativas de elaboração frente a conflitos ainda não simbolizados.

Em Além do Princípio do Prazer (1920), Freud introduz a noção de compulsão à repetição, evidenciando uma satisfação paradoxal ligada ao sofrimento. Na infância, essa dinâmica manifesta-se na repetição de comportamentos, erros escolares, inibições ou retraimentos.

O complexo de Édipo ocupa lugar central na organização psíquica, estruturando as identificações e a relação com a lei. Dificuldades nesse processo podem gerar angústias intensas, rivalidades e conflitos com figuras de autoridade, refletindo-se no contexto escolar.

O caso do Pequeno Hans ilustra como o sintoma pode funcionar como solução provisória frente à angústia. Ainda hoje, muitas manifestações infantis cumprem função semelhante, organizando a vida psíquica diante de conflitos inconscientes.

3. MELANIE KLEIN E A SISTEMATIZAÇÃO DA CLÍNICA INFANTIL

Melanie Klein consolida a psicanálise com crianças ao legitimar o brincar como via privilegiada de acesso ao inconsciente. O brincar passa a ocupar lugar equivalente à associação livre, permitindo a expressão das fantasias inconscientes.

Para Klein, a vida psíquica inicia-se precocemente, sendo organizada a partir das relações com os objetos primários. As experiências com o seio bom e o seio mau estruturam as primeiras representações internas, influenciando profundamente os vínculos posteriores.

As fantasias inconscientes organizam os afetos, os medos e os desejos. Na clínica, manifestam-se por meio do brincar, dos desenhos, das narrativas e das atitudes corporais.

A autora descreve as posições esquizo-paranoide e depressiva como modos de funcionamento psíquico. Na primeira, predominam a cisão e as angústias persecutórias; na segunda, emerge a integração, a culpa e a capacidade de reparação.

No contexto escolar, essas dinâmicas podem ser observadas em crianças que oscilam entre idealizações intensas e desvalorizações abruptas, entre dependência e retraimento.

A transferência manifesta-se desde os primeiros atendimentos, exigindo do analista sensibilidade no manejo das interpretações. Apesar das críticas à ênfase nas fantasias arcaicas, a contribuição kleiniana permanece fundamental para compreender a intensidade emocional da infância.

4. WINNICOTT E A FUNÇÃO DO AMBIENTE NO DESENVOLVIMENTO

Diferentemente da ênfase kleiniana nas fantasias inconscientes e na realidade psíquica interna, Winnicott desloca o eixo da constituição subjetiva para a qualidade do ambiente. Essa diferença implica modos distintos de compreender a origem do sofrimento psíquico infantil. Para o autor, o desenvolvimento emocional depende da presença de um cuidado suficientemente bom.

O holding, o handling e a apresentação do objeto constituem funções fundamentais que possibilitam à criança experimentar continuidade de existência. A “mãe suficientemente boa” não é perfeita, mas capaz de se adaptar sensivelmente às necessidades do bebê.

Falhas ambientais significativas podem gerar angústias precoces, insegurança e dificuldades de simbolização. Na escola, essas falhas podem se manifestar por meio de retraimento, dependência excessiva ou comportamentos desorganizadores.

O conceito de espaço transicional ocupa lugar central. Trata-se de um campo intermediário entre realidade interna e externa, onde se inscrevem o brincar, a criatividade e a aprendizagem.

Na alfabetização, esse espaço é essencial. A criança aprende quando se sente segura para experimentar, errar e criar. Ambientes excessivamente rígidos ou ameaçadores comprometem esse processo.

O professor, muitas vezes, ocupa uma função ambiental importante, sustentando emocionalmente o percurso da criança.

5. LACAN, GOZO E LUGAR DO SUJEITO

Lacan introduz a articulação entre linguagem, desejo e gozo na constituição subjetiva. Para o autor, o sujeito nasce imerso no campo do Outro, isto é, no universo da linguagem e das expectativas que o antecedem.

A criança pode ocupar, inconscientemente, o lugar de objeto no fantasma parental, sustentando o gozo do Outro. Posição na qual, o sintoma pode funcionar como resposta à dinâmica familiar. Ou seja, nesse contexto, a função da castração e a inscrição da lei simbólica, tradicionalmente articuladas à função paterna, são fundamentais para a constituição do sujeito e para a regulação do gozo.

 O conceito de gozo, em Lacan, não se confunde com prazer ou sofrimento consciente, referindo-se a uma satisfação paradoxal que excede o princípio do prazer e se articula à dimensão pulsional e ao corpo.

A clínica lacaniana não visa eliminar o sintoma, mas transformar a relação do sujeito com ele. O analista sustenta um espaço onde a palavra possa emergir, mesmo quando inicialmente se expressa pelo brincar ou pelo corpo.

Na escola, essa perspectiva convida a olhar além do desempenho, interrogando o lugar subjetivo da criança no contexto familiar e institucional.

6. CLÍNICA, EDUCAÇÃO E ALFABETIZAÇÃO

A articulação entre psicanálise e educação evidencia que a alfabetização é um processo simbólico e afetivo, não apenas técnico. Aprender a ler e escrever implica apropriar-se da linguagem e construir uma nova posição subjetiva. O signo linguístico atua como um objeto transicional; para aprender, a criança precisa que a letra não seja algo invasivo do Outro, mas um campo de experimentação criativa entre o 'eu' e o mundo.

Dificuldades nesse percurso podem estar relacionadas a impasses na constituição do eu, na relação com a autoridade e na elaboração da frustração. A escuta sensível transforma a queixa em possibilidade de elaboração. Por exemplo, crianças que reiteradamente “erram” na escrita podem estar, para além de uma dificuldade cognitiva, sustentando uma posição subjetiva marcada pela recusa ou pela impossibilidade de se inscrever plenamente na demanda do Outro.

Em alguns contextos, a medicalização pode operar como resposta rápida às dificuldades infantis, correndo o risco de reduzir a complexidade do sofrimento psíquico a dimensões exclusivamente biológicas. A perspectiva psicanalítica propõe intervenções mais éticas, respeitando a singularidade.

Nesse sentido, a escola pode operar como espaço de simbolização quando sustenta a diferença, tolera o erro e não reduz a criança ao desempenho.

7 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

A clínica psicanalítica com crianças convoca o profissional a sustentar uma escuta que ultrapassa os sintomas visíveis, os comportamentos considerados inadequados e as dificuldades de aprendizagem. Trata-se de reconhecer, em cada manifestação infantil, uma tentativa singular de elaboração subjetiva.

A articulação entre Freud, Klein, Winnicott e Lacan permite compreender que o sofrimento da criança não pode ser reduzido a categorias diagnósticas ou a explicações exclusivamente pedagógicas. A sexualidade, o mundo interno, o ambiente e o gozo constituem dimensões indissociáveis na constituição do sujeito.

Nesse percurso, evidencia-se que aprender, brincar, falar e se relacionar são processos profundamente atravessados pela história emocional da criança e pelas marcas de suas relações primárias. A alfabetização, nesse sentido, não se limita à aquisição de competências técnicas, mas implica um trabalho simbólico de inscrição na linguagem e no laço social.

A escola, quando se configura como espaço de escuta, respeito e acolhimento, pode favorecer processos de simbolização fundamentais ao desenvolvimento psíquico.

Nesse sentido, autores como André Green ampliam essa discussão ao destacar o papel do negativo e das falhas de simbolização na constituição do sofrimento psíquico.

O professor, ao reconhecer a singularidade de cada aluno, contribui para a construção de um ambiente que sustenta a criatividade, o desejo de saber e a confiança em si mesmo.

A formação em psicanálise, mesmo antes da prática clínica formal, possibilita ao educador desenvolver uma postura ética diante do sofrimento infantil, evitando respostas normativas, medicalizantes ou excludentes.

Reconhece-se, com Freud e Mannoni, o caráter de 'impossível' da educação; a psicanálise não busca o ajuste escolar perfeito, mas que o sujeito encontre uma saída singular para seu sofrimento no laço social.

Essa perspectiva amplia o olhar sobre a infância e fortalece intervenções mais sensíveis e responsáveis.

Por fim, sustentar o lugar da criança como sujeito implica reconhecer que cada trajetória é atravessada por impasses, descobertas e rearranjos constantes. A psicanálise, ao preservar essa complexidade, reafirma sua relevância na clínica, na educação e na construção de práticas comprometidas com a dignidade e a singularidade da infância.

Este trabalho não pretende esgotar as articulações teóricas propostas, mas indicar caminhos possíveis de interlocução entre psicanálise e educação.

REFERÊNCIAS:

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1905.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1920.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. Rio de Janeiro: Imago, 1926.

KLEIN, Melanie. A psicanálise de crianças. Rio de Janeiro: Imago, 1932.

KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1957.

KLEIN, Melanie. Amor, culpa e reparação. Rio de Janeiro: Imago, 1937.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda (Encore). Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1964.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1971.

WINNICOTT, Donald W. A criança e o seu mundo. Rio de Janeiro: LTC, 1965.

WINNICOTT, Donald W. Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

GREEN, André. O trabalho do negativo. Porto Alegre: Artmed, 1993.

GREEN, André. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

MANNONI, Maud. A criança retardada e sua mãe. Rio de Janeiro: Zahar, 1964.

MANNONI, Maud. Educação impossível. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

Publicado Originalmente em: https://julianisouza.substack.com/p/gozo-e-sexualidade-na-clinica-psicanalitica

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23 Abr 2026

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