25/03/2026 às 22:46 Psicanálise

O recalque orgânico: o que se perdeu quando nos erguemos

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Por Karine Riboli |

Freud propõe uma hipótese quando ele especula sobre as condições filogenéticas da sexualidade humana de que a adoção da postura ereta teria produzido uma mutação decisiva na economia pulsional, e é crucial lembrar, trata-se de hipótese, não fato anatômico empiricamente demonstrável. 

Ao ficarmos eretos, o olfato perderia centralidade como organizador da vida sexual. Em diversas espécies de mamíferos, os sinais olfativos desempenham papel relevante na regulação do ciclo sexual, na excitação e na escolha do parceiro. A hipótese freudiana sugere que, no humano, com a verticalização do corpo, o campo visual ganhou primazia e o olfato tornou-se secundário. 

Essa “perda” contudo, não deve ser entendida como mera alteração sensorial, mas como reconfiguração do regime da satisfação pulsional.

O chamado “recalque orgânico” não corresponde ao recalque psíquico em sentido estrito. Não se trata de um mecanismo defensivo decorrente de conflito intrapsíquico individual, mas de algo que Freud situa num plano anterior, estrutural, ligado às próprias condições biológicas da espécie. Seu alcance é filogenético e não apenas ontogenético.

Convém, contudo, um cuidado conceitual. Freud nunca formalizou o recalque orgânico como conceito metapsicológico. Ele não o inclui entre as categorias sistemáticas do aparelho psíquico. No entanto, retorna a essa hipótese em momentos decisivos de sua obra, das cartas a Fliess às notas tardias de O mal-estar na civilização. Trata-se menos de um conceito estabilizado e mais de uma conjectura persistente, algo que insiste como pano de fundo da teoria.

Nesse sentido, a hipótese busca explicar por que a sexualidade humana não se apresenta como instinto rigidamente orientado, mas como campo marcado por desvio, substituição e deslocamento. Um preço evolutivo.

O olfato pode funcionar, nesse contexto, como figura concreta dessa perda organizadora. Ele representaria uma sexualidade regulada por ritmos biológicos relativamente estáveis. Ao perder tal eixo, o desejo humano não encontra mais um objeto naturalmente garantido; ele se torna deslocável, mediado por fantasias e formações substitutivas. O que se desorganiza não é apenas um sentido, mas a correspondência direta entre necessidade e objeto. 

Freud não formula o conceito de “objeto causa do desejo”, como o fará posteriormente Lacan com o objeto a. Mas o terreno conceitual está parcialmente preparado: se há um objeto perdido na origem, algo que estruturava a satisfação e que não retorna, então o desejo passa a se organizar em torno de uma falta estrutural. 

Contudo, é preciso evitar uma leitura linear. Em Freud, trata-se de uma perda situada num horizonte biológico-filogenético; em Lacan, a falta decorre da entrada do sujeito na ordem simbólica. Não se trata de simples continuidade, mas de deslocamento de problemática. Não desejamos porque temos instinto; desejamos porque algo se perdeu.

A narrativa do olfato desloca o recalque do campo moral para o campo antropológico. Não seria apenas a cultura que reprime; a própria condição humana já carrega um déficit constitutivo. A cultura apenas sofisticaria esse corte inicial. 

A hipótese do recalque orgânico não se inscreve estritamente no campo da metapsicologia, entendida como formalização tópica, dinâmica e econômica do aparelho psíquico, ela opera num nível mais abrangente, voltado às condições de possibilidade da própria estrutura desejante. 

Nesse sentido, trata-se de uma construção que aqui designo como metapsicanalítica: uma narrativa teórica que visa dar conta, num plano quase mítico-antropológico, de um dado clínico.

O humano não dispõe de objeto natural garantido. Sua relação com o objeto é mediada, deslocada, construída, inventada.

Se seguimos esse fio, o “objeto radicalmente perdido” não se reduz a um órgão sensorial específico, mas aponta para a impossibilidade de uma satisfação plena e imediata. O desejo humano é estruturalmente órfão. Talvez seja justamente isso que nos fez produtores de cultura, linguagem, sublimação e neurose.

O recalque orgânico figuraria, assim, como mito de origem dessa orfandade. Um mito teórico, funcional, lembrando que o desejo humano nasce já desalinhado do corpo. E é desse desalinhamento que emerge tanto o sintoma quanto a criação.

Referências

A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess — (1887-1904) / Jeffrey Moussaieff Masson; tradução de Vera Ribeiro. - Rio de Janeiro: Imago, 1986. (cartas de 11 de janeiro de 1897 - pág. 222 e 14 de novembro de 1897 - pág. 279).

O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias ã psicanálise e outros textos (1930-1936) / Sigmund Freud; tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.(especialmente na nota da Parte IV - pág. 61-63)

Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan – Vol. 1: As bases conceituais / Marco Antonio Coutinho Jorge - Rio de Janeiro: Zahar, 2022 (pág. 49)

Conheça mais sobre a Karine em seu site www.clinicariboli.com.br e Instagram @psikarineriboli

25 Mar 2026

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