24/02/2026 às 21:47 Clínica Contemporânea Psicanálise

Internet, games e a horizontalização social

19
4min de leitura

Por Ariane Salomão |

Você deve ter vivido este cenário: pai e mãe mandavam e eram obedecidos cegamente ou o castigo viria a cavalo. O que era a vida era respondido diretamente, sem rodeios e introjetado como a mais pura verdade, que era seguida até o fim dos dias e passada de pais para filhos.

A sociedade foi vertical por um bom tempo, a hierarquia era clara e seguida sem questionamentos e aqueles que questionavam montavam uma banda de rock, faziam poemas, pintavam, realizavam protestos nas ruas, frequentavam o Woodstock pela liberdade de ser quem fossem, mesmo não sabendo o que isso significava.

Mas hoje, algo mudou, ou melhor, muitas coisas mudaram, se antes seguíamos a bússola dourada, hoje ela se tornou obsoleta e ficamos desbussolados frente ao que é a vida, porque não há uma resposta a ser seguida, mas a ser inventada. Porém, frente ao Gozo imperativo, ficamos à mercê do comando “beba a felicidade” ou será “goze a felicidade”?

Internet, games, marketing entram como a figura do comando, pois, como em Percy Jackson, entramos num cassino, engolimos o ecstasy e seguimos repetindo, repetindo e repetindo para gozar demais sem desfrutar. E é nessa repetição que o vício pode vir a nascer, porque para continuar gozando precisa-se ficar neste cassino, nessa rede social, nesse game, e é aí que a ordem não sabe o que fazer, pois frente ao gozo a hierarquia perde força, se antes o adulto mandava e o jovem obedecia, hoje a palavra perde poder, não é introjetada e obedecida, mas desafiada pela ordem do gozo, porque no hiperconsumo há a ilusão de ganhar a felicidade que é minha por direito. 

Aqui abro um parêntese, porque há muito na conta das gerações mais novas, só que vícios sempre existiram e existirão, muda-se o tempo, mas há sempre algo em nós que pede por mais, não à toa existem adultos de diferentes idades também viciados em tecnologias diversas. 

Continuando, os avanços tecnológicos trazem, em seu marketing, a satisfação, a imperatividade de estar sempre feliz, gozado, mas neste lugar de gozo há pouco espaço para o desejo que exige o lugar da invenção, da responsabilização e da criatividade. Oras, como serei criativo se estou, a todo momento, satisfeito, viciado, em ecstasy pelo meu consumo? Ao perder a noção do esforço, da conquista, da invenção, perde-se o lugar do desejo, porque não há espaço para desejar quando não há o vazio, a falta, a incompletude, esta que é falsamente ignorada pela ilusão da satisfação entregue de bandeja pelo vício. 

E, ao mesmo tempo em que há tantas opções, há também a perda da capacidade de escolher, uma vez que ficamos horas e horas consumindo sem, de fato, ter escolhido o que está sendo consumido — parafraseado, de tanto escolher acaba sendo escolhido — ficando presos na ilusão da completude.

Mas engana-se quem acha que essa satisfação não gera angústia, diante de tantas escolhas, tantas opções de satisfação — desde cardápios a conteúdos — nos vemos diante de uma sociedade angustiada pelo vício que não preenche. É um paradoxo se pensarmos sobre isso, pois, se de um lado há a satisfação viciante, do outro há a angústia por ter tantas escolhas e, ao escolher uma, se vê insatisfeito por ter escolhido. Esse excesso nos traz o outro lado da moeda e nos dá de encontro com o real: não há como viver sem angústia, não há meios de viver sem o sofrimento, sem a insatisfação. Ao tentar resolver essa equação, nos depararemos com a falta e a tentativa, sempre insuficiente, de tamponar aquilo que sempre estará faltante, vazio, e é neste “abismo” que, ao olhar, se deparará com a não garantia de efetividade, porque não há garantia, dado que sempre que colocar algo “na sua falta” haverá mais falta, mais querer, mais necessidade de se satisfazer no impossível e é aqui que mora o vício, o excesso, porque ele satisfaz por um momento só que sempre, sempre, será insuficiente e sempre haverá o querer mais, gozar mais. 

A grande questão é que a saída do cassino não está sinalizada com um letreiro, assim como em Percy Jackson capturado pelo prazer imediato em que não precisa desejar, para sair deste ecstasy uma “saída” é sair da captura do gozo para se inscrever no campo do desejo, em que o mesmo implica a falta, tempo, responsabilidade e incompletude, enquanto o gozo implica estagnação sedutora, o desejo abre espaço para a criatividade, para a construção e para o movimento. E principalmente para se posicionar como sujeito, visto que quando não há limite, não há sujeito, só o gozo absoluto que aprisiona numa repetição que afasta da própria vida.

Bibliografia

Forbes. J. Geração Mutante, disponível em Geração Mutante: Palavra Diz, Palavra Toca - Jorge Forbes

Forbes, J. TerraDois, disponível em https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=7fKwQtVluG8

ANDRADE, Helainy. Videogames, hiperconsumo e outros ‘vícios’ no tratamento de crianças e adolescentes. Palestra/Conferência. Curso Psicanálise: Novas Conferências sobre a Clínica do Real, Instituto IPLA, 2022.

Originally published at https://www.arianesalomao.com.br.

24 Fev 2026

Internet, games e a horizontalização social

Comentar
Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
Copiar URL

Quem viu também curtiu

10 de Out de 2025

Psicanálise Subversiva ou Mercantilizada? Freud e a Cultura Atual

19 de Jun de 2025

O sujeito atravessado pela história: uma leitura geracional na psicanálise

24 de Jul de 2025

Sublimação como artifício de sustentação da coesão cultural do sujeito

Olá! Como podemos te ajudar hoje? Se preferir um contato mais direto, nos chame no WhatsApp
Logo do Whatsapp